quinta-feira, 19 de novembro de 2009

A matemática da graça


Por Daniel Grubba


Quando Jesus contou a parábola do trabalhadores da vinha, os ouvintes presentes sabiam que estavam diante de um ensino revolucionário, uma verdadeira subversão de valores. O raboni de Nazaré, sem dar qualquer explicação aos doutores da lei, alterou completamente a mesma parábola dos trabalhadores que era contada pelos mestres judaicos de seu tempo. O jovem galileu estava na verdade, diante do olhar dos grandes rabinos e também de seus discípulos criados no judaísmo palestino, fazendo algo inimaginável para os padrões religiosos vigentes, escandaloso para ser mais exato.

A parábola dos trabalhadores contada pelos contemporâneos de Jesus, registrado no Talmude, falava de um trabalhador que foi contratado no fim do último turno (17:00), e durante apenas uma hora de serviço, trabalhou mais do que todos os outros, e por isso, tornou-se digno de receber o salário integral que foi acordado com aqueles que trabalharam o dia todo debaixo do sol escaldante. Os rabinos estavam querendo dizer que “o balanço final de Deus não se realiza na forma de liberalidade generosa, mas através da exata correspondência entre trabalho e salário”.

Jesus não concordava com este pensamento matemático espiritual que tornava Deus um rígido contabilista, um deus que pesa em sua balança os atos bons e maus e retribui conforme o merecimento de cada um. E foi por isso que contrapôs esta idéia de causa e efeito em sua parábola, não enfatizando o esforço dos últimos trabalhadores. Ao contrário disso, Jesus coloca na boca dos que aguentaram o sol intenso e a fadiga do dia inteiro, a insatisfação com o salário recebido, pois pensavam que mereciam mais que os preguiçosos que pouco trabalharam - "quando os primeiros vieram, pensaram que receberiam mais" (Mt 20 : 10).

Jesus afirmou categoricamente que o Deus de toda a graça, deu a todos exatamente a mesma quantia. Philip Yancey, no ensaio intitulado "A nova matemática da graça" comenta este ensinamento revolucionário dizendo:

"Nós recebemos a graça como um dom de Deus, e não por alguma coisas que tenhamos dado duro para ganhar. No reino da não-graça, alguns trabalhadores merecem mais do que outros; no reino da graça a palavra merecer nem mesmo se utiliza".

Nós recebemos a graça como uma dádiva, e não por alguma coisa que tenhamos dado duro para ganhar, e este foi o ponto que Jesus deixou claro na parábola do trabalhador. Sim, esta matemática da graça é escandalosa, fere nosso orgulho e senso de justiça própria, mas quando entendemos que absolutamente ninguém é capaz de satisfazer as exigências de Deus para uma vida perfeita, então podemos nos prostar e agradecer o dom imerecido que recebemos sem qualquer esforço de nossa parte.

Evangelho Integral


Por Leonardo Gonçalves
(Púlpito Cristão)

Meu brother Daniel,

Soteria não é apenas salvação metafísica, mas cura das doenças, da fome, do abandono. "O evangelho todo, para o homem todo" foi o brado de Lausanne, e a este grito eu também faço coro.

Dói dentro de mim ver o quanto a igreja de Cristo, que deveria ser sal e luz, influenciando o mundo por meio das boas obras (palavras de Jesus), as quais foram preparadas por Deus de antemão para a observância dos santos (Ef 2.10), têm cedido a essa doença chamada consumismo, comercializando benesses divinas numa relação custo/benefício, enquanto milhares de pessoas vão dormir com o estômago vazio todos os dias.

"Dai-lhes vós de comer!", disse Jesus. Por isso, muito mais que criticar o comunismo ou o capitalismo, convém que eu, enquanto igreja, alimente estes miseráveis. É disso que o profeta fala em Deuteronômio 15.5, e foi essa a recomendação que Paulo recebeu no primeiro concílio eclesiástico (Gl 2.10). Dicotomizar a missão da igreja (missão espiritual x missão social) só vai contribuir para o agravamento da miséria no mundo. O evangelho é integral!

Falar da missão social da igreja a uma sociedade "cristã" que reza todos os dias pela cartilha do capitalismo é uma missão difícil e árdua. A consciência evangélica, de um modo geral, está embotada para esta realidade, e só Deus pode despertá-la.

Há vários perigos que cercam a igreja, como bem disse o pastor Newton. As heresias são um deles. O outro, muito mais sutil, é a ortodoxia em detrimento da ortopraxia, a crença politicamente correta que nada produz. Precisamos manter nosso coração livre de ambas, se quisermos ser relevantes em nossa missão.

Um grande abraço, e parabéns pelo excelente artigo. Com certeza uma das suas melhores publicações no Soli Deo Glória!.

NEle, que multiplicou pães e peixes.

Leonardo.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Debate sobre a fome no mundo


"Eis que esta foi a iniqüidade de Sodoma, tua irmã: Soberba, fartura de pão, e próspera ociosidade teve ela e suas filhas; mas nunca fortaleceu a mão do pobre e do necessitado".


(Ezequiel 16 : 49)



Enquanto os líderes mundiais se reúnem em Roma na sede da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) para discutir a fome mundial, o blog Soli Deo Gloria também discutiu internamente, num debate entre seus leitores, este problema social que agrava-se a cada ano que passa.

Na ocasião, escrevi um breve texto sobre o problema da fome mundial baseado no grito de um bilhão de famintos: Tenho fome! Obviamente, por falta de tempo e espaço, não considerei todos os problemas que envolvem a questão estrutural da fome no mundo. Apenas fiz uma crítica a falta de sensibilidade de uma sociedade orientada basicamente pelo "desejo de consumo". Como não poderia ser diferente, o texto gerou alguns debates. Alguns defenderam o sistema capitalista como "o melhor dos mundos possíveis"; outros ao invés de discutir os problemas estruturais do capitalismo (que geram graves crises sociais e ambientais) passaram a atacar o fracassado socialismo comunista, e outros por fim, fizeram menção do problema da fome relacionando-o com o papel da igreja no mundo.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Tenho fome!

Por Daniel Grubba


Eu não consigo entender como a sociedade moderna e globalizada se tornou cínica e insensível para com os que sofrem. Alias, dá para entender sim. Uma sociedade capitalista orientada basicamente pela busca ilimitada da realização do desejo de consumo, realmente não deve ter muito tempo para olhar para os milhões de seres humanos ao redor do mundo que gritam: Tenho fome!* Além do tempo que deve ser usado somente para própria satisfação, ajudar os pobres miseráveis também não é viável economicamente para o progresso do sistema de livre mercado. O fato é que, consumir para "ser", acumular e ostentar para crescer diante dos demais, são as principais prioridades para os que "dormem no barulho" desta ideologia da morte.

O teólogo argentino Enrique Dussel traduz para nós o que é o grito da dor, e o que isto implica em termos práticos. Ele diz:

sábado, 7 de novembro de 2009

Crítica a Teologia da Prosperidade


"O povo pobre do mundo, os excluídos das sociedades, não tem fome somente de pão, mas também da humanidade que lhe é negada. Fome do Deus que não exclui ninguém (Atos 10.35 e Romanos 2.11), e que está no meio dos seres humanos "para que todos tenham vida e a tenha em abundância" (Jo 10.10). Para que essa boa-nova possa dar frutos na nossa sociedade, devemos enfrentar outro problema fundamental, que é uma tarefa basicamente teológica: a crítica às teologias da retribuição e da prosperidade. teologias que, de certa forma, dizem que a pobreza e o sofrimento são castigos enviados por Deus aos pecadores e que a riqueza é justa e merecida porque é a benção divina distribuída por meio de mecanismo do mercado. Essas teologias usam o nome de Deus em vão (Êxodo 20.7), sacralizam as injustiças do mundo e anunciam um deus-ídolo que legitima a cultura da insensibilidade e coloca culpa nas vítimas dos mecanismos de exclusão da nossa sociedade".

Jung Mo Sung em Se Deus existe, por que há pobreza? p, 95.

A Verdade


"Cristo quer que a verdade seja preferida a ele porque antes de ser Cristo ele é a verdade. Se alguém se distancia dele para ir a verdade, não dará muitos passos sem cair sem seus braços."

(Simone Weil)

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Dupla delícia


"Dupla delícia - O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado."

(Mário Quintana)

terça-feira, 3 de novembro de 2009

A ironia do legalismo

Por Daniel Grubba

Nós devemos tirar o chapéu para os legalistas. São eles os responsáveis por reduzir o Evangelho a um rígido e massacrante código de leis. E isto é um feito e tanto. É como colocar as Cataratas do Iguaçu dentro de uma xícara de café, ou sendo mais fíel a uma expressão bíblica, é por vinho novo em odre velho.

O evangelho, ou o pseudo-evangelho, que seus ardilosos pregadores anunciam, é um verdadeiro híbrido, uma mistura bem interessante. Bom, quais são os ingredientes? Uma grande dose de lei mosaica, um punhado de ética-moral estadunidense, raízes fortes do coronelismo nordestino, e não pode falar uma boa dosagem de regras eclesiásticas inventadas por homens. Ah... quase esqueci... uma "pitadinha de nada" da graça para parecer que é Evangelho.

Por que tantas interpretações?

Por Daniel Grubba

Este post é uma resposta ao Ricardo do blog A arte de ter razão (muito bom por sinal). Como acredito que esta pergunta Por que tantas interpretações? é uma pergunta recorrente e bastante comum, resolvi deixar disponível aos leitores do blog.

1- Como você deve saber a Bíblia é uma coleção de 66 livros, escritos há milênios atrás, em um longo período de tempo (aprox. 1500 anos) e por diversos autores. Há um abismo cronológico, geográfico, cultural, gramatical e literário, que separa o leitor moderno do escritor original. Obviamente, estes abismos tornam a tarefa hermenêutica um grande desafio.

sábado, 31 de outubro de 2009

Ganhador do livro As crônicas de Nárnia


O blog Soli Deo Gloria fez seu primeiro sorteio de livro e foi um sucesso de participação. Pessoas de todos os cantos do Brasil, de confissões de fé bem variadas, não perderam tempo e se inscreveram no sorteio que teve seu término no dia 31/10. Agradeço ao portal Mundo Nárnia que enviou bastante leitores ao blog e a também a todos os participantes.

***O ganhador do livro foi o teólogo e pastor Joelson Gomes do blog Graça Plena.***

Obrigado a todos que participaram. Em breve tem mais sorteio de livro para os seguidores do blog. Portanto, fiquem atentos! O próximo sorteio deve ocorrer em Novembro e iremos sortear um livro de apologética cristã.

Coragem protestante

Por Daniel Grubba

Hoje comemora-se o dia de Reforma Protestante. Há exatamente 492 atrás que um monge subversivo, porém cativo a consciência do evangelho, afixou na porta da catedral de Wittenberg, suas 95 teses. Dentre muitos aspectos abordados, Lutero denunciou o abismo que havia entre a igreja católica e a Palavra, criticou também a corrupção moral do papado, e profetizou contra as insanidades daqueles que estavam negociando financeiramente a salvação da alma dos homens.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Leitura pós-moderna do texto bíblico

Por Daniel Grubba

Uma das principais características do pós-modernismo é a relativização da verdade. De acordo com os profetas da pós-modernidade, não existe uma verdade absoluta, tudo é relativo. É por isso que é muito comum ouvirmos por ai alguns mantras como: "isto é verdade para você, mas não é verdade para mim", "a verdade é apenas uma questão de perspectiva", e assim por diante.